Outro dia eu conversava com um amigo
sobre a existência de Deus. Ele (refiro-me ao amigo), filósofo e ateu convicto,
argumentou que se Deus existisse não haveria tanta iniquidade e injustiças no
mundo, pois se Deus é, como dizem, o senhor de todas as coisas, Ele (refiro-me
agora a Deus) poderia muito bem impedir que atrocidades e injustiças
acontecessem. Deveria, como Deus que é, impedir que os homens, criação Sua e,
portanto, sob Seu julgo, cometessem qualquer MAL, já que tanto se fala ser Ele
um Deus do BEM. Se isso não ocorre, e sabemos mesmo que não ocorre, logo Deus
não existe!
Analisando grosso modo a sua argumentação, inicialmente foi fácil perceber
nela certa lógica. Porém, se levarmos em conta que o meu amigo é muito mais ateu
convicto do que filósofo, poderíamos inferir o seguinte: a proposta de sua
argumentação é tendenciosa, unilateral, pois meu amigo tem opinião formada, mostra-se
sempre irredutível acerca de temas religiosos, usa sempre argumentos favoráveis
às suas conveniências e ao seu entendimento das coisas e certamente, caso lhe
seja proposta, NÃO aceita argumentação contrária, principalmente se a
argumentação for também de caráter religioso, que embora não prescinda de
lógica, baseia-se muito mais em conceitos dogmáticos, fé, simplesmente FÉ, do
que em qualquer outra coisa, e a fé ele notadamente não deve apreciar, pois
ainda não deve ter tido as suas experiências que colocariam por terra os seus
frágeis conceitos de ateísmo.
Partindo desse ponto de vista, vamos
a uma argumentação mais laica. A meu ver, culpar Deus pelo mal que nós mesmos
fazemos só para justificar a existência de Deus seria como culpar nossos pais
por nossos maus passos na vida, e assim sucessivamente na ascendência em linha
reta. Em exemplo mais didático, seria como culpar um pai por um homicídio
cometido por seu filho penalmente imputável, só para provar que o pai existe. Mas
tentar convencê-lo de que a lógica do meu argumento é igual à lógica do dele
seria, creio eu, pedir demais para uma cabeça tão dura.
Para estender ainda mais a discussão,
que acredito valiosa, vamos pegar carona no mote de Voltaire, que dizia: “Não concordo
com o que dizes, mas defendo até a morte o direito de o dizeres”. Pra mim, não há nada mais justo do que isso. Mas isso que eu entendo
justo não me permite afirmar que todos os meus amigos ou inimigos devem ou
possam pensar assim como eu ou mesmo acreditar na frase de Voltaire como eu.
Concordam? Não? Tudo bem! Não faz mal.
O que digo é que há pessoas que pensam que os outros são obrigados a
concordar com suas ideias, opiniões e crenças e, se não pensarem igual, estão
erradas. Só posso tirar daí duas conclusões infelizes: ou o indivíduo é muito
cabeça dura, ignorante, ou é autoritário mesmo para querer impor a sua vontade
sobre os demais. Contudo, tenho também que admitir a possibilidade de haver
quem discorde do que eu acabo de dizer. Creio ser isso o justo.
Para adubar um pouco mais a matéria,
devo acrescentar ainda que tenho eu próprio outra teoria no tema que agora
desenvolvo e que o leitor lê, portanto mais de uma ideia ou opinião sobre a
mesma coisa, e isso não atrapalha o meu viver. Ao iniciar a proposta de
desenvolver o texto, apenas escolhi uma linha, mas não descarto as outras
possibilidades. Por que então não aceitar a opinião do outro, que é apenas
diferente da nossa, não melhor ou pior, mais válida ou menos válida?
E apimentando ainda mais o tema, vejamos:
concordo com tudo e acredito em tudo que vem da mente humana, isso só vai
depender do humano e das circunstâncias e conveniências do momento para ajustar
tudo e agradar a todos. Assustam-se? Calma! Ironias à parte, se olharem bem, essa
é a regra básica da política que impera no país. Mas parece que ninguém
contesta. Aliás, todo mundo até gosta. Sabem por quê? Porque essa prática é chamada
de jeitinho brasileiro, e alguns de nós, se tiverem oportunidades, farão
também. E essa, da minha parte, é apenas outra leitura de cenário, outra
opinião, que eu não sigo, mas admito haver quem goste, e como há! Não espero,
porém, que me sigam, tampouco quero seguir alguém que aprecie esse tipo de
valor, mas uma coisa é certa: devemos nos respeitar, e não querer impor um ao
outro o que gostamos, acreditamos ou seguimos.
E a propósito de opiniões, o meu
primo Glauco Capper já escreveu um texto curioso: “Maria vai com as outras”
(acesse o blog http://26mm.blogspot.com.br/): “existe algo muito importante em
tudo isso: há pessoas que usam argumentos que as favorecem, para praticarem
coisas que fogem até da decência! Que não seja o caso de ler este artigo e
achar que pode fazer tudo que der na telha. Bom senso é um bom termômetro e
sempre funciona. Já a opinião dos outros!...” Então vai aí um conselho: não
levem meu texto muito a sério! RS!
Porém, como não faz mal algum, vamos
a mais um exemplo: outro dia, em uma reunião, me pediram para eu expor minhas
ideias. E eu, conhecendo bem o ambiente hostil, tosco e obtuso em que estava,
disse: “Expor minhas ideias? Aqui? Pra quem? Pra quê? Expor ideias aqui é um
desperdício! Seria como lançar margaritas ante
porcum!. Vocês não aceitarão o meu argumento e ainda vão querer me
convencer do contrário, ou melhor, me impor o que vocês acreditam”. E então me
calei!
Certamente houve quem pensasse de mim
o que eu agora penso e digo sobre eles. Arrogante? Autoritário? Talvez. A
verdade é que não sei. Também não me importa. O que interessa é que, antes que
a discussão pudesse começar, ela acabou. Sem atritos, assim acredito. Com
efeito entendi que houve certo respeito a opiniões (não, não estou sendo
irônico!), embora elas nem tenham sido expostas, nem as minhas sobre eles, nem
as deles sobre mim. Que bom! Creio que desperdiçar um dia com atritos e defesas
de opiniões, se a causa não for filosófica, não é salutar à alma humana.
Nesse conceito, entendo que não
devemos deturpar o conceito de filosofia, como acredito ter feito o meu amigo e
outros tantos que andam por aí a arrotar verdades incontestáveis. Afinal,
filosofar é EXPOR ideias... e não IMPOR ideias! E é isso que eu
defendo. Mas tudo isso é apenas mais uma opinião de minha parte, o meu
entendimento das coisas. A verdade é que não tenho a pretensão de convencer
alguém nem de impor a ninguém as minhas verdades. Posso ter seguidores ou
opositores, ou quem sabe até perseguidores, mas eles serão pra mim apenas isso.
Nada mais!
Entendo também que Ciência é ciência;
religião, uma questão de fé: ou você acredita ou não acredita. Einstein, um dos
maiores cientistas do mundo, inicialmente ateu, acabou por descobrir Deus
dentro do laboratório, e nos deixou um grande ensinamento: "A Ciência sem a religião é manca. A Religião sem a ciência é
cega." Eu costumo dizer o seguinte: Se você não consegue entender as
duas coisas, os dois conceitos, para fazê-los entrar em harmonia, paciência
então! Nesse caso, é melhor se manter ignorante, afinal de contas, a ignorância
é mesmo uma bênção!
O que quero
dizer é que, apesar das ciências que aprendemos e que achamos que com elas
podemos dominar o mundo e as pessoas, o nosso cérebro deve estar aberto a novas
experiências, de modo que possamos encontrar respostas às nossas indagações
diárias que nos acompanharão até o nosso último dia na terra. Não podemos nos
fechar ao conhecimento de coisas novas ou a novos entendimentos das coisas. Em
qualquer lugar e tempo, podemos encontrar inclusive Deus onde menos esperamos. Basta-nos
apenas nos despirmos desse véu espesso de preconceitos e ignorâncias de
acharmos que porque somos filósofos, historiadores, astrônomos, físicos
quânticos ou os pica-da-galáxia, temos que necessariamente ser ateus e não
admitirmos um Deus.
Nosso saudoso poeta Carlos Drummond
de Andrade, num arroubo de lirismo, lógica matemática e fé, nos deixou sua
simples prova de reconhecimento de Deus no poema “O Único” que, embora pequeno, faz-se grandioso pela universalidade
da mensagem:
“O
único assunto é Deus
O
único problema é Deus
O
único enigma é Deus
O
único possível é Deus
O
único impossível é Deus
O
único absurdo é Deus
O
único culpado é Deus
E
o resto é alucinação.”
É diante deste pequeno poema que
Drummond se revela um filósofo da alma humana e acaba nos revelando sutilmente,
nesta interpretação possível, tudo aquilo que não temos coragem de aceitar por
não termos ainda capacidade de entender.
Se ao longo da história da humanidade
tivéssemos tratado a ciência descartando tudo que não compreendemos, como
talvez faça o meu amigo no caso da religião, não teríamos evoluído a tal ponto.
Aliás, talvez nem tivéssemos saído da caverna. Do mesmo modo, descartar a existência
de Deus só porque nós não o compreendemos ou porque Ele talvez não faça o que
queremos para que justifiquemos a nós mesmos, seria aceitar permanecer para
sempre na escuridão.
E se existe mesmo um Deus – e eu
acredito que existe – que a nós e a tudo criou, que nos ouve e nos vigia agora,
certamente Ele está de fato além da nossa compreensão. E isso não nos deve
causar nenhum assombramento. É bem possível, pois, que tudo o mais que há sobre
Ele, que se crê sobre Ele ou mesmo escrito sobre Ele não passe de mera invenção
da mente humana, assim como o poema de Drummond, que nos abre um universo de
portas possíveis para onde quer que queiramos ir, pois a vida é aquilo que a
gente quer que ela seja, e acreditar em Deus, ao contrário do que se pensa, ou
como pensa meu amigo, não é uma questão de lógica cartesiana, mas simplesmente
de fé. E fé não se explica.
Por isso, quando meu amigo me expôs a
sua opinião sobre Deus, apenas respeitei o que ele acredita e, embora tenha ele
tentado me convencer e engrossar o seu clube, apliquei a ele o mesmo argumento
e pedi que ele respeitasse o que eu acredito.
Enfim, decidimos não impor um ao
outro qualquer que fosse as nossas crenças ou vontades. Pois como disse
Saramago: “Aprendi a não convencer ninguém. O trabalho de convencer é uma falta
de respeito. É uma tentativa de colonização do outro.” Portanto, apenas
respeite a opinião do teu próximo. Acho que assim, imagino, devemos viver
melhor. Mas isso também é só mais uma opinião.
Wallace Rocha
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