terça-feira, 9 de outubro de 2012

Rana et bos: altera fabula



Inops, potentem dum vult imitari, perit.

In prato quondam rana conspexit bovem,
et tacta invidia tantae magnitudinis
rugosam inflavit pellem; tum natos suos
interrogavit an bove esset latior.
illi negarunt. Rursus intendit cutem
maiore nisu, et simili quaesivit modo, 
quis maior esset. Illi dixerunt bovem.
Novissime indignata, dum vult validius
inflare sese, rupto iacuit corpore. 



Morale:
Nec invideat superiori, quod miserum est; nec quod stultitia est, aquare optet.
Invidia et superbia facit hominem pereunt.


segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Vamos brincar de índio?



                Narram as crônicas eleitorais do município do Jordão, interior do Estado do Acre, que certo candidato, escolado na arte da política eleitoreira, portanto ávido por votos, já se via vitorioso nas eleições municipais daquele ano, uma vez que estava acostumado com a ingenuidade da população urbana local. Porém, como estratégia de campanha ainda mais segura, centrou suas atenções nos votos da comunidade rural da região, predominantemente indígena, pois lhe faltava apenas o apoio dessa gente para sacramentar de vez a vitória, já dada como quase certa.
                Resolveu então fazer campanha fluvial, visitar as aldeias indígenas, conversar com os chefes das tribos... tudo isso no mais descarado estilo de pedir votos; e numa dessas visitas, encontrou os Kaxinawá[1] do Rio Jordão reunidos, parou, procurou o cacique da tribo e pediu-lhe para fazer o velho discurso de campanha, com aquela lábia característica que a nós, os brancos, sempre convence.
                Os índios, como nós, embora já habituados com as vigarices do homem branco, são boa gente hospitaleira e, por isso, o receberam com alegria quase festiva, apertos de mãos, abraços e cumprimentos tribais... e com a mesma hipocrisia a eles dispensada pelo candidato, mas com muito mais classe.
                — Povo Kaxinawá, tô aqui hoje pra pedir o apoio Kaxinawá nas eleição. Como vocês sabe... – começou o redundante aspirante o seu insulto à tribo, num português até aceitável para o nível dos candidatos que se apresentam hoje em dia, mas já demonstrando que não conhecia muito bem a etimologia do termo indígena empregado na frase nem o que ele significava para aquele povo, muito menos as regras de concordância do nosso tão massacrado idioma. Por mais ou menos dez minutos, continuou o blábláblá ferino aos indígenas e ao vernáculo e arrematou o pedido erguendo os dois braços com os punhos cerrados: — Posso contar com o voto Kaxinawá pra gente irmos junto à vitória?! – e esboçou feição de cínica dissimulação à espera de resposta positiva.
Os índios, que haviam estado em silêncio até aquele momento, olharam todos para aquilo e, em seguida, para o cacique, que olhou para o seu povo, fez um sinal com a cabeça, e todos os índios, que conheciam o português e as intenções do candidato talvez um pouco melhor que ele próprio, estamparam no rosto um risinho também cínico, mas contido, ergueram também os braços com os punhos cerrados e, em coro, pronunciaram:
                — Huni kuinman![2]
                O candidato não entendeu patavinas! Mas, embora aflito por entendimento, se fez parecer entendido por aquela fingida inteligência que só os ignorantes explícitos conhecem e dela fazem uso muito bem. Em seguida, só para se certificar, olhou para o cacique, que acenou com a cabeça em sinal positivo, e o pretendente aos votos esboçou de volta um risinho amarelo, acanhado de ignorância, e que logo agravou o seu estado de estupidez depois de novo coro risonho dos índios:
                — Huni kuinman! Dayanãwẽ![3]                              
                A esta segunda tão efusiva manifestação, o candidato, ainda meio desconfiado e sem entender bulhufas, mesmo assim, respirou aliviado. Tinha que ser algo bom. O sorriso era agora mais largo e descontraído, quase de agradecimento. Pensou que aquela sua lembrança esporádica e imediata dos índios certamente faria os índios lembrarem-se dele agora.
                O cacique tocou-lhe o ombro em sinal amistoso e, sorrindo, conduziu o candidato, esfuziante de estúpida alegria, até a saída da aldeia. E como prova inconteste de amizade, o cacique, sorrindo, pronunciou as últimas palavras:
                — Huni patapabiakẽ ẽ haibuhairaki.[4]
                Os índios gargalharam. O candidato sorriu de volta em agradecimento definitivo.
                Deixou a aldeia com a sensação de ter feito a melhor de suas barganhas políticas e com o seguinte pensamento: A vitória era certa. Certíssima! Os índios estavam com ele.
                No dia das eleições, a surpresa: vitória do candidato opositor, que nunca se esquecera de visitar aquela e outras aldeias muitas vezes antes, mesmo que não fosse candidato. Estava aí o reconhecimento dos Kaxinawá a um Huni kuin.
                Moral da nossa história? Creio que é hora de nós brincarmos de ÍNDIO!

Wallace Rocha


[1] Autodenominam-se "Huni Kuin" (Homem Verdadeiro). A palavra Kaxinawá significa literalmente "Povo do Morcego" e não é muito bem aceita por alguns indígenas dessa etnia.
[2] Seu falso! (Literalmente: Homem não verdadeiro!)
[3] Seu espertalhão! Vai trabalhar! (Lit.: Homem não verdadeiro! Trabalha!)
[4] Ele é tonto até na esperteza (mas é meu amigo). (Lit.: Homem danado de esperto; é verdadeiro na esperteza. Deve ser entendido por ironia, significando exatamente o contrário, algo bem próximo da nossa expressão “Ô coisa linda!”, significando “feio”, tratamento que só os amigos se permitem)

domingo, 23 de setembro de 2012

Campanha Eleitoral



Um político está andando tranquilamente quando é atropelado e morre. Quando chegou do outro lado, encontrou um ancião que lhe disse:
– Filho, estava a sua espera. Seja bem-vindo ao Paraíso! Antes que você entre, porém, há um probleminha: raramente vemos parlamentares por aqui, então não sabem bem o que fazer com você. É certo que aqui você pode fazer uso do seu livre arbítrio. Portanto, hoje vou mandá-lo ao inferno para que passe o dia lá. Amanhã o mandarei para o Céu. Na volta você me dirá onde quer ficar.
– Ah! – disse o político – Claro que quero o céu!
– Não!... para decidir, primeiro você tem que passar pelos dois...
O político, então, desolado, bateu à porta do inferno. Que surpresa! Quem veio lhe atender foi o capeta em pessoa, um senhor muito gentil, que o levou para uma sala enorme, o acomodou numa poltrona de veludo e lhe disse para ficar à vontade que voltaria logo.
Ali a cerveja rolava, tinha muita comida e mulheres lindíssimas. A mais bela de todas aproximou-se e, de modo carinhoso, disse-lhe:
– Venha, fique aqui conosco, participe.
Ele não podia acreditar naquilo... Caiu na farra e pensava: “lá na Terra tá todo mundo deixando de “curtir” por medo de ir para o inferno! Não acredito nisso! Quer saber de uma coisa? Vou ficar por aqui mesmo, o Céu deve de ser uma chatice, com anjinhos tocando harpa etc e tal... uma monotonia só!”
Lá pelas tantas o capetão apareceu e lhe disse:
– Bem, acabou o seu tempo. Espero que o senhor faça uma boa escolha e fique com a gente...
– Claro, disse ele... Só não vou ficar de uma vez porque é contra o regulamento, mas não vou demorar nadinha no Céu. Amanhã, antes da hora do almoço, estarei por aqui. – disse lançando olhares de promessa para a moça que o recebeu.
À saída do Inferno, lá estava o ancião.
– Filho, – disse-lhe ele – amanhã bem cedo você vai para o Céu passar o dia lá.
No dia seguinte lá se foi ele; e aconteceu como previra: o Céu realmente era uma droga. Lá estavam os tais anjinhos anêmicos, tocando as suas monótonas harpas, enquanto algumas senhoritas envoltas em mantos brancos cantavam melodias celestiais. Ele não teve dúvidas: elogiou daqui, fez um agrado dali, deu uma disfarçadinha e saiu fora. Ufa!, afinal se livrara mais fácil do que imaginara. Não via a hora de ir para o inferno!
Quando saiu, lá estava, à porta, outra vez, o ancião, que lhe disse:
– E aí, filho, pensou bem? Cuidado para não escolher errado.
– Fique tranqüilo. – disse – Nunca tive tanta certeza de algo. Quero ir para o inferno!
– Bem, só me resta lhe desejar boa sorte.
Com as faces em brasa e o coração aos pulos, ele bateu outra vez à porta do inferno. Desta vez não foi o mesmo capeta, simpático, que veio atendê-lo, muito pelo contrário, era um sujeito mal vestido e com cara de poucos amigos, que o mandou sentar numa cadeira velha e aguardar.
Dali dava para ver a sala onde estivera e, para a sua decepção, não havia mais nada do que vira. No lugar das belas mulheres agora havia um balcão sujo e um monte de gente na fila para receber um mísero pedaço de pão, enquanto a capetada mal encarada dizia: “vamo andando, minha gente, que inda tem muito trabaio!”
Resolveu perguntar. Na primeira chance chamou um sujeito que passava e lhe disse:
– Psiu, por favor, diga-me uma coisa. Eu estive aqui ontem e estava muito diferente do que está agora. O que aconteceu?
– É fácil de explicar. – disse-lhe o outro – Até ontem estávamos em campanha eleitoral, agora já conseguimos o seu voto!