quinta-feira, 14 de julho de 2011

“O Paraizo dos Lanbe-sal”


             A vida é infinitamente mais estranha do que qualquer coisa que a mente do homem possa inventar. Sequer ousaríamos conceber fatos que ocorrem normalmente no dia-a-dia. Se pudéssemos sair voando pela janela e planar sobre a cidade, gentilmente removendo os telhados, poderíamos espiar as coisas bizarras que acontecem, as estranhas coincidências, os destinos que se cruzam, a maravilhosa cadeia de eventos que atravessa geração e leva aos resultados mais excêntricos, que tornam sem sentido e desinteressante toda a ficção, com seus convencionalismos e conclusões previsíveis. Estas palavras estão contidas na abertura do conto Um caso de Identidade, de Sir Arthur Conan Doyle, que foi um famoso escritor e médico britânico, reconhecido no seu tempo e ainda hoje por suas histórias sobre o detetive Sherlock Holmes, aliás grande inovação, para a época, no campo da literatura criminal/policial.
            Tomando por base a citação de Conan Doyle, me pergunto quantas histórias interessantes não daria a vida de uma pessoa, dessas que vivem aí pelo mundo, numa realidade às vezes até bem próxima de nós, mas que sequer são notadas, porque são quase invisíveis.
            Considerando que Doyle, além de histórias policiais e de mistério, também escreveu ficção científica, novelas históricas, peças, poesias e obras de não-ficção, se vivesse ainda hoje e se propusesse a escrever sobre essa gente, o caso de um singular senhor, conhecido por Zé do Chifre, daria uma história no mínimo pitoresca, não por seu caráter criminal/policial, mas pela obviedade que sugere o apelido do respeitado senhor Zé.
            Como já não há mais Conan Doyle e a ele talvez não interessasse escrever sobre tal assunto, também nada atraente a este blogueiro (RS!), nós, que somos contemporâneos do referido senhor e por dever histórico, nos daremos o trabalho de render-lhe uma singela homenagem e eternizá-lo, em tom de comédia, mas com todo o respeito que o caso merece, nas crônicas do bairro Jorge Lavocart, a pedido do próprio Zé do Chifre que, ao saber de uma ferramenta de comunicação com o mundo (nosso blog) que poderia levá-lo a ser conhecido e famoso nas “Zoropa”, fez questão de nos contar algumas de suas hilárias historietas e nos cedeu inclusive imagens suas e de um dos alegóricos atributos de sua alcunha, um chapéu de couro com dois chifres pontiagudos que usava no momento da entrevista.

Zé do Chifre mora no seu Paraizo dos Lanbe-sal”, letreiro estampado no portão de sua humilde residência e que é também sua metáfora para o recanto de um Corno com letra maiúscula, como ele próprio descreve. Na parede do casebre há um capacete com dois chifres, além da Oração do Corno, escrita pelo próprio senhor Zé, num português nada ortodoxo, mas perfeitamente compreensível.

Homem de estatura atarraxada, com gingado característico de quem adora fazer pilhéria, Seu Zé exibe um brinco de argola na orelha esquerda e algumas tatuagens mal rabiscadas no seu corpo já enrugado pelo tempo. Na face carrega um par de óculos bem comuns e no lábio superior ostenta um bigode cheio, largo e esbranquiçado.
Apesar da saúde fragilizada decorrente de doenças características de sua idade (faz uso de medicamento para hipertensão e outras mazelas), mora sozinho e quase não tem com quem compartilhar o dia, a não ser com alguns visitantes que há muito lhe conhecem e lhe visitam esporadicamente e com os pássaros que o presenteiam com a sua presença e o encantam com seu cantarolar matinal. Ele alimenta os animais todos os dias com arroz. Gasta alguns quilos por mês. É seu passatempo predileto.
Apesar de sua vida modesta, não reclama de nada. Bem se vê pelo seu sorriso, sempre estampado no rosto, que seu humor é contagiante.
Tem sempre uma boa história na ponta da língua, entre elas algumas lições de como tratar bem uma mulher para não levar chifre, mas que ele só aprendeu depois de treze... explico:
Sem cerimônias, Seu Zé se autodenomina, orgulhosamente, a tomar pela largura do seu sorriso, o Corno mais corno do Acre. Pois já foi casado com 13 mulheres e foi corno por 13 vezes. E propôs um desafio assustador, digno de pesadelo: “Quem for mais corno do que eu que se apresente aqui e me prove!” Alguém aí se habilita?!
Seu bigode cheio, largo e esbranquiçado carrega também alguma história, pois nele, em contraste com o branco, ressalta-se certa amarelidão nas extremidades que, segundo Seu Zé, teria sido provocada pelo calor das virilhas femininas com as quais ele teve contato, após os seus 75 anos bem vividos, quando adotou outra estratégia na abordagem sexual logo depois de sua queda de virilidade, esse mal irremediável que um dia atacará a nós todos (que pra mim demore bastante. RS!). Tal amarelidão, estampada nos pelos do seu bigode, é hoje a lembrança de suas mais recentes estripulias eróticas.
Na experiência dos seus 75 anos de idade, Seu Zé do Chifre nos deixou uma lição: disse que de política não fala, pois não gosta de imoralidade! Quer apenas terminar seus dias na paz do Senhor.
Quase ao final de nossa conversa, nos tocou com outro relato que nada mais é do que um misto de romantismo triste, irônico e até cômico: Seu Zé traz gravado no peito, como se para reforçar a memória de seu coração, as inicias de um nome que não nos revelou, mas afirmou ser da única mulher que amou e não soube valorizar e que por isso não esquece.
Que Seu Zé possa encontrar no resto de vida que lhe resta o conforto por ele almejado e certamente merecido. Que seja do tamanho do seu bom-humor e alegria contagiantes.
Para arrematar o texto e a história, finalizamos com mais uma pérola deixada por Zé do Chifre: “Os Cornos, mais do que ninguém, também amam!”


Wallace Rocha


6 comentários:

Danielle disse...

Coisas do Acre, né!
Mas a parte de tirar os telhados das casas, pra saber o que se passa na vida dos outros não deixa de ser interessante...A vida de cada um de nós daria um livro!

Wallace Rocha disse...

É verdade, Dani. Principalmente nos dias atuais, quando o que mais interessa aos outros é justamente a vida dos outros! Mesmo assim, a vida continua, e é dela que as histórias são feitas!

Marcelo disse...

Ficou muito bom! Parabéns! Assim como o senhor, tive também a oportunidade de conhecer pessoalmente o seu Zé e ouvir seus sábios e hilários conselhos! O único que quase mata o "SATANÁS", por ter mexido com seus precisos passarinhos! kkkkkkkkkkkkk

Wallace Rocha disse...

Lambe-sal é uma lenda viva!

Giuzzeppi Coalhada disse...

legal, legal, eu vivo no Acre Medieval, é um lugar num universo paralelo de onde vc vive, conheça mais: http://giuzzeppicoalhada.blogspot.com/

Wallace Rocha disse...

Valeu por visitar o blog, Giuzzeppi!