quinta-feira, 6 de junho de 2013

O MITO DO LEITO DE PROCUSTO E A IGNORÂNCIA QUE NOS RODEIA

Por Elenckey Pimentel

Procrusto, também conhecido como "Procrustes", "Procusto", "Damastes" ou "Polipémon" é um personagem da mitologia grega que faz parte da história de Teseu. Procusto era um bandido que vivia na serra de Elêusis. Em sua casa, ele tinha uma cama de ferro, que tinha seu exato tamanho, para a qual convidava todos os viajantes a se deitarem. Se os hóspedes fossem demasiado altos, ele amputava o excesso de comprimento para ajustá-los à cama, e os que tinham pequena estatura eram esticados até atingirem o comprimento suficiente. Uma vítima nunca se ajustava exatamente ao tamanho da cama porque Procusto, secretamente, tinha duas camas de tamanhos diferentes. Procrusto significa "o esticador", em referência ao castigo que aplicava às suas vítimas.
Continuou seu reinado de terror até que foi capturado pelo herói ateniense Teseu que, em sua última aventura, prendeu Procusto lateralmente em sua própria cama e cortou-lhe a cabeça e os pés, aplicando-lhe o mesmo suplício que infligia aos seus hóspedes.
É bem verdade que ainda hoje se vê muitos Procustos, de vários tipos, espalhados por aí. Aquele que ignora a corrupção de seus políticos ajustando as coisas de modo a querer justificar aquilo que não tem justificativa, em vez de assumir o erro, o que seria mais honesto e maduro. Aqueles que se apoderam de uma pseudo-sabedoria religiosa e interpretam as Sagradas Escrituras de acordo com o que querem e ignorando aquilo que não entendem, em lugar de buscar uma interpretação – repito! – madura. Há ainda os pais de filhos sempre inocentes. Os culpados são sempre os filhos dos outros. E a grande invenção da qual o Brasil ignorante se orgulha: o jeitinho brasileiro, que faz adequar tudo ao driblar as leis e fazer do país uma grande vítima do Procusto mitológico que, até hoje, não se deparou com seu Teseu. E duvido que isso acontecerá!
No Acre, incrivelmente, parece que este mito é bem real. Pelo menos é um Estado CLÁSSICO! RS!

OREMUS!

segunda-feira, 3 de junho de 2013

BEING IS NOTHINGNESS / O SER É O NADA


(Há uma versão em português ao final do texto em inglês)

The following text is composed of fragments of the numerous obsecrations from my friend and Professor José Janilson towards authorities in the State of Acre, Brazil, to enforce what is expected in the Brazilian Constitution regarding the right to health, a right that so far has not been fully secured.
Janilson is cardiac and has fought tirelessly to keep standing, considering he needs special medication provided by the government, which not always offers the medicine, and when the medication is available, the state gives sometimes him half only.
Were it not for the charity of some doctors that now and again give him free samples of the medication, Janilson would be in much more delicate situation...
Knowing his numerous obsecrations posted on facebook (profile: José Janilson), I decided to give my contribution here on this blog, which is already accessed in 39 countries. Who knows we may well be heard, now that our country and our state do not hear us!

BEING IS NOTHINGNESS
By José Janilson
Sartre was wrong!
In his important work "Being and Nothingness", I think in French is "L'Etre et le Néant", could be corrected to something like "L'Etre est le Néant", more precisely "Being is Nothingness."
(…) Well, I do not know whom to appeal to!
Even if ordered by Justice – by virtue of Injunction – If I seek assistance from the State of Acre to provide me a medication (Pradaxa 150mg) because of my heart problem, the medication was secured only half of what had been requested. This medication serves to soften the Atrial Fibrillation and assists in the prevention of Cerebrovascular Accident (stroke), ischemia, and embolisms. And it seems that there is not much interest in solving the problem. If I go to the medication dispensing service of the Health Department of the State of Acre in search of the other half of my NOT dispensed medicine, to my surprise, disgust, and expansion of disbelief, but almost certain finding, there was not even a box of the medicine. That first half was done in November, and it's been so long that if the medicine would be ordered from Germany, which is the headquarters of the manufacturer of the medicine, probably the medication would have arrived too.
Look! Nowadays in the State of Acre, Northern Brazil, we are over 350 patients with pacemakers and other implanted electronic devices. That’s it!: we are more than 350 (THREE HUNDRED AND FIFTY) citizen-taxpayers-voters-patients with heart disease corrected by some sort of electronic device implanted in our bodies here in the State of Acre. Many of these people need various kinds of remedies. I imagine that more than 10% of this heart-diseased quota need to take this kind of medicine.
Ensuring health to the citizens is a state duty in Brazil. But, despite being a constitutional obligation, the authorities do not comply with it and prevaricate before serious problems which are easy to solve. In fact authorities do not respect what is mandated by law.
The problem is that the taxpayer-voter-patient with such a device implanted in his body – besides restrictions already imposed by the State – undergoes numerous social restrictions:
1 - should not pass the doors of shops, banks, or any establishments with public access doors with metal detectors or burglar, because such doors can affect or even deregulate the pacemaker. Imagine that you go to the "Mall of Acre", and the shopkeeper does not give any attention to you, without shutting down the system that can cause interference and/or alter his pacemaker... How would you feel? Only you would be left wandering the halls of that shed unable to enter the stores and standing in the aisles looking as “sucker” (...) through the windows. (...);
2 - these same “sucker” human beings need medication provided by the state, but they do not have access to this medication correctly. Sometimes, the state provides it (by half), other times it does not. (...);
3 - the persons who are cardiac find some difficulty walking because their movement makes them feel kinda breathless. For that reason, they almost do not go around for a walking. But if these same citizens own cars, they do not have an appropriate place to park them because the transit authority does not provide an appropriate space for these second-category citizens to have a proper place to park and get around in search of goods and services they need. (...);
How long should we wait?!! The lawmakers we elected are, in most cases, shamefully illiterate. The government representatives also seem to have no worries about this problem. No matter if they hold a degree in medicine, or not. Well, they may think, it’s not my problem! Then, let them be damned! It looks like Bertolt Brecht, writing on "Indifferent", was correct. Well, I'm tired and fed up, so I'll remember two irreverent Brazilian singers Raul Seixas referring to Silvio Brito asking to: "Stop the world that I wanna get off." I can no longer stand so much indifference and lack of commitment! "Because here on earth we will get only disgusting worms!"
I would like to express my special thanks to Cardiologist Doctor Gilberto, who provided me with some free samples of the medicine. Were it not for the charity of Doctor Gilberto, I'd be completely without medication.
PS. But there is something that makes me happy: you – powerful or make-believe authorities – well, you are not IMMORTAL. Although IMMORAL, you also will die! You also will disappear from this planet! Well, I do not believe in hell, but if there is one, may it consume you burning any existing genetic structure in you...
Therefore: BEING IS NOTHINGNESS! See, Sartre?!

(Portuguese version)
O texto a seguir é composto de fragmentos dos inúmeros apelos do amigo e Professor José Janilson às autoridades acreanas para fazer valer o que está previsto na própria Constituição Brasileira no tocante ao direito à saúde, direito esse que até agora não lhe tem sido completamente assegurado.
Janilson é cardiopata e tem lutado incessantemente para se manter em pé, haja vista necessitar de medicação especial fornecida pelo Estado, que nem sempre dispõe do medicamento e, quando o tem, só lhe cede pela metade.
Não fosse a caridade de alguns médicos, que vez ou outra lhe cedem amostras grátis da medicação, Janilson estaria em situação bem mais delicada...
Tendo conhecimento de seus inúmeros apelos publicados no facebook (perfil: José Janilson), decidi eu dar a minha contribuição aqui neste blog, que já é acessado em 39 países. Quem sabe assim possamos ser ouvidos, já que o nosso país e o nosso Estado não nos ouvem!
Vamos ao texto:

O SER É O NADA
Por José Janilson

Sartre estava errado!!!
Na sua importante obra "O Ser e o Nada", acho que em Francês é "L'Être et le Néant", poderia ser corrigido para algo como "L'Être est le Néant", mais precisamente "O Ser é o Nada".
(...) Bem, eu já não sei a quem recorrer!
Se busco assistência do Estado do Acre para me disponibilizar um remédio (Pradaxa 150mg) por conta do meu problema cardíaco, mesmo sendo ordenado através da Justiça – por força de Liminar – com as devidas instruções, o remédio foi garantido só a metade do que havia sido solicitado. Esse remédio serve para amenizar a Fibrilação Atrial e auxilia na prevenção a AVC (derrame), isquemia, e embolias. E parece que não há tanto interesse em resolver o problema. Vou ao CREME – serviço de dispensação de medicação da Secretaria de Saúde do Estado do Acre – próximo ao Hemoacre, em busca da outra metade NÃO aviada do meu remédio, e para minha surpresa, desgosto, e ampliação de descrença, mas quase certa constatação, NÃO havia sequer uma caixa do remédio. Essa primeira metade foi efetuada em novembro, e já faz tanto tempo que daria pra ter mandado buscar até da Alemanha, que é a sede do laboratório fabricante do medicamento. Já teria chegado também.
Vejam só: hoje no Acre somos mais de 350 portadores de marca-passos e outros equipamentos eletrônicos implantados (...). Isso mesmo: somos mais de 350 (TREZENTOS E CINQUENTA) cidadãos-contribuintes-eleitores-pacientes com cardiopatias corrigidas por algum tipo de aparelho eletrônico implantado no corpo aqui pelo Estado. Muitos destes seres humanos precisam tomar vários tipos de remédios. Imagino que mais de 10% deste contingente cardiopata precisa tomar esse tipo de remédio.
Garantir saúde aos cidadãos é dever do Estado. Mas, apesar de ser uma obrigação constitucional, as autoridades não cumprem e prevaricam diante de problemas sérios e fáceis de solucionar. Nem tampouco respeitam o que é mandado pela Justiça.
O problema é que o contribuinte-eleitor-paciente com um equipamento destes implantado no seu organismo, além das restrições já impostas pelo Estado, sofre inúmeras restrições sociais:
1 - não deveria passar nas portas das lojas, bancos, ou quaisquer estabelecimentos de acesso público com as portas com detectores antifurtos ou metálicos, porque as tais portas podem afetar ou até desconfigurar o marca-passo. Aí, meu, lascou-se tudo: imagine que você vai ao "shopping do Acre", e o lojista não dá a mínima atenção a você, sem desligar o sistema causador de interferência e/ou até desconfiguração no seu marca-passo, como você se sentiria? Só lhe resta perambular pelos corredores daquele galpão sem poder entrar nas lojas e ficar feito um abestado nos corredores olhando (...) através das vitrines. (...);
2 - estes mesmos seres humanos precisam de medicamento fornecido pelo Estado e não têm acesso de forma correta. Às vezes, o Estado disponibiliza (pela metade), outras vezes, não tem. (...);
3 - o sujeito que é cardiopata tem "dificulidades" para caminhar porque sua movimentação o deixa com falta de ar. Por essa razão, ele/a já quase não sai. Mas, se este mesmo cidadão possui um carro, ele/a NÃO tem um local apropriado para estacionar porque a autoridade de trânsito não contempla um espaço apropriado para este ser de segunda categoria ter um lugar adequado para estacionar e se locomover em busca dos bens e serviços que precisa. (...);
Até quando esperar?!!! Os "pra-lamentares" que temos são, na grande maioria, vergonhosamente pouco preocupados com a situação de quem já vive em situação mais difícil ainda. Os representantes do poder executivo também não parecem ter tanto interesse em resolver o problema. Não importa se tem formação superior em medicina ou não! Bom, eles devem pensar, o problema não é meu! Então, que se... !!! Parece que Bertolt Brecht, ao escrever sobre "os indiferentes", estava correto.
Bem, eu já estou cansado e de saco cheio, por isso vou me lembrar de Raul Seixas citando Silvio Brito: "Parem o mundo que eu quero descer!". Já não aguento mais tanto descaso e falta de compromisso! "Porque aqui na face da Terra só bicho escroto é o que vai ter!"
Quero expressar meu agradecimento ao Cardiologista Dr. Gilberto, que me disponibilizou umas amostras grátis com as quais eu estou me virando. Não fosse ele, eu estaria completamente sem medicação.
(...)
PS. Mas, há algo que me alegra: vocês – autoridades com poder ou de faz-de-conta – também, vocês não são IMORTAIS. Apesar de IMORAIS, vocês também morrerão! Vocês também sumirão deste planeta! Bem, eu não acredito em inferno, mas se houver um, que ele os consuma queimando toda e qualquer estrutura genética existente em vocês...
Logo: O SER É O NADA! Viu, Sartre?!


            

domingo, 19 de maio de 2013

Ética da Hipocrisia - crônica de um veneno crônico



A Barata diz que tem sete saias de filó
É mentira da barata, ela tem é uma só
Ah rá rá, oh ró ró, ela tem é uma só!
(...)
A Barata diz que tem um anel de formatura
É mentira da barata, ela tem é casca dura
Ah rá rá , hu ru ru, ela tem é casca dura
(...)
(Cantiga Popular)


Após certa celeuma acerca de escândalos de irregularidades e ingerências políticas envolvendo membros do alto escalão do governo da Vila dos Bobos, o repórter indagou do assessor de comunicação, em entrevista coletiva, que justificativas ele trazia sobre os fatos veiculados na mídia.
O assessor, cansado de adotar o glamour do estilo true lies, respondeu secamente, num rompante de indignação:
— Quer a verdade ou quer que eu minta?
O repórter foi lacônico:
— A verdade!
— Essa, infelizmente, eu não posso falar, nem na televisão nem na rádio! – respondeu o assessor, com a angústia estampada na testa. — Vão me acusar de ferir a ética institucional.

Assim é trabalhada a ética na administração de algumas de nossas instituições públicas, se é que isso pode se chamar de ética!
Ora! Se “a ética é a parte da Filosofia que estuda os valores morais e os princípios ideais da conduta humana”[1]; se também “é o conjunto de princípios morais que se devem observar no exercício de uma profissão”[2], não é nada ético tê-la que aplicar a serviço da mentira, pois na mentira não existe ética. Se oficiosa, por prazer ou utilidade, a mentira continua sendo prejudicial, aética. Se inocente, a mentira pode ser igualmente desairosa, inconveniente, podendo levar a desvios comportamentais, a hábitos funestos. De qualquer modo, “mentir é um desserviço à formação ética”[3].
“Mentira é a afirmação contrária à verdade, é engano propositado, é também engano da alma, engano dos sentidos, falsa persuasão, juízo falso, erro, ilusão, vaidade”[4]. A ética, ao contrário, não se traveste de valores amorais, mas de virtudes, valores sólidos como a verdade e a justiça, por exemplo.
“Aristóteles dizia que as virtudes morais não são plantadas em nós pela natureza, mas são produto do hábito”[5]. Considerando isso, como há indivíduos influenciáveis, mal habituados! É exatamente este tipo que vende a honra e a dignidade por míseros centavos, cargos, status! E se for preciso, exercem a mentira como se verdade fosse e ainda invocam a ética para justificá-la.
Mas por que isso acontece? Sejamos simples: quem desvirtua a verdade que lhe seria destruidora, caso fosse revelada, não aceita a sua realidade e é incapaz de superar suas limitações. Isso é fato. Portanto, nem precisamos ir mais longe a explicações que não seriam nada éticas.
De fato, “honra, probidade, dignidade e vergonha na cara são valores há muito aposentados pelo advento do relativismo moral”[6], pois alguns valores são relativos a cada grupo de indivíduo, e desse grupo brotarão as conveniências a serem reveladas ou escondidas. Entendemos também que, “se estes valores são desprovidos de discernimento, a ética servirá somente para balizar uma visão limitada da realidade, como por exemplo, a ética dos mafiosos ou dos grupos criminosos”[7], ou mesmo dos grupos políticos que estão no poder, que, para se sustentarem, investem maciçamente em propaganda e na compra de indivíduos para mentir em nome do Estado. Os que conseguem e vivem bem com isso despojam-se da ética, da moralidade e da dignidade para manter o emprego. Como bem disse Rachel Sheherazade, repórter do SBT, “Manda quem pode, obedece quem tem o rabo preso com o governo.” Fica assim o assunto bem resumido.
A verdade é que enquanto o trabalho sério enobrece, a política malfeita envilece o homem. Se fosse esta proposição algo que pudesse ser demonstrado por meio de um processo matemático, lógico, diríamos que estamos frente a frente com um teorema incontestável. Atualmente, porém, e isso é lamentável, o que vale é a ética da mentira ou, como é o caso, na maioria das vezes, a ética de agradar os “padrinhos” e se manter no cargo.
Mas não pense o leitor que esses indivíduos que se predispõem a isso o fazem por mera necessidade financeira. Não é só isso. É bem pior! É falta de caráter mesmo. Na verdade eles também pertencem, como disse Dostoiévski (Crime e Castigo), “a essa inúmera e variada legião de indivíduos medíocres, de fracassados vulgares que não aprenderam nada a fundo, que aderem de um momento para o outro às ideias que estão na moda [ou à política que impera na situação], para logo em seguida degradarem e desacreditarem e, num abrir e fechar de olhos, ridicularizarem tudo o quanto anteriormente apoiaram, ainda que fosse da maneira mais sincera.”
Para isso, vale propagandear, florear as palavras, maquiar inaugurações, engendrar números, mas tudo com bastante objetividade e com a melhor das intenções, diga-se de passagem, intenções pessoais. Isso me faz lembrar o bom modelo de Darrell Huff, no livro Como mentir em estatísticas (1954), onde há exemplos vários de que “números podem ser usados para distorcer a realidade em vez de ajudar a compreendê-la”. “Tal arte não é nova, mas continua sendo a principal forma de transformar a mentira em verdade”[8]; que o diga Goebbels, que “soube tirar proveito da força da propaganda a fim de justificar os crimes de Hitler”[9], martelando a mentira aos quatro cantos, sob a égide nefasta de que “uma mentira dita mil vezes torna-se verdade”. Mas quando essa verdade não se sustenta mais, de nada adianta, como de fato não adiantou, pois uma hora a casa cai (com o perdão da expressão chula), e cai em qualquer lugar, seja na Alemanha Nazista, na situação econômica dos Estados Unidos, no caos econômico e político da comunidade europeia ou na Vila dos Bobos... Ops! Vejam só! Eis aí a nossa vila em status de paridade com grandes nações! Que maravilha!
O certo, entretanto, é que a força da verdade, sem esforço ou pretensão alguma, é mais destruidora, basta ser dita e provada uma vez. Estão aí as verdades científicas de Einstein que, quando emigrou para os EUA, foi editado na Alemanha um livro intitulado “Cem cientistas contra Einstein”. Resposta do gênio: “Por que cem? Se estou errado, bastava um!”
Infelizmente, porém, a ética da mentira está em alta. Esconde-se a podridão, e borrifa-se o melhor dos perfumes para a plebe, que aplaude a realeza almiscarada como se deuses fossem. Mas um dia, essa realeza, de tanto usar os melhores aromas, esgotará todos os perfumes do mundo, revelando então o seu verdadeiro odor! E a plebe, o que fará?
Nos dias atuais, do modo que é posta, a ética não passa de um exercício de imoralidade em algumas de nossas instituições, algumas delas instituições fulanizadas e que apresentam índice de promiscuidade acurada! Além disso, alguns dirigentes têm estampado na testa o malcaratismo, a mediocridade e a inércia endêmica, tudo reforçado pela subserviência política.
Ademais, longe de constituir o retrato da verdade, propagandas nefastas têm ganhado popularidade nas mais diversas classes sociais do cenário vilabobense e, diga-se de passagem, algumas dessas classes são bem mais suscetíveis a isso, contando, desafortunadamente, com simpatizantes até mesmo entre alguns amigos nossos, cidadãos vilabobenses desorientados.
E para completar o absurdo do conjunto, o mercantilismo funcional através da política que atualmente impera nessa vila é o que ajuda a desgraçar a convivência no meio social, já que a política compra, vende, aluga e descarta, ao seu bel prazer, os indivíduos suscetíveis a esta mercantilice no barato jogo de poder!
E era justamente sobre tudo isso que se falava, outro dia, entre amigos, numa praça da vila, e acabou-se por se comparar essa briga por cargos políticos com a briga de cães por um osso descarnado em Memórias Póstumas de Brás Cubas. O diálogo era o seguinte:
— Sabe a cena dos cachorros brigando por um osso?
— Sim, sei. Você está dizendo que nós somos os cachorros?
— Não. É pior: somos o osso!
Vista a cena desta forma, isso mostra a que ponto chegou a degeneração dos valores morais vividos pela sociedade, transformando a todos em meras coisificações humanas, reduzindo-os a quase nada, a um osso descarnado.
A esse tipo de indivíduo vai aí um recado: “O homem que se vende recebe sempre mais do que vale”.
Mas toda esta história de fingir verdade, parecer ser mais inteligente e ludibriar o público, vender-se à política para não perder os cargos e outras práticas tanto mais vis, tudo isso faz lembrar uma fábula interessante, As Roupas Novas do Imperador, que, em resumo, é mais ou menos assim, para quem ainda não conhece:

Certo dia chegou à corte dois velhacos que, se fazendo passar por tecelões, espalharam o engodo de que o tecido que fabricavam era tão fino, raro e delicado que apenas as pessoas mais inteligentes e mais cultas eram capazes de vê-lo.
Ora! Não tardou que a notícia chegasse aos ouvidos do Imperador, e logo o Rei mandou convidá-los à corte.
Lançada a proposta pelos falsos tecelões e apresentadas as qualidades do fino tecido, o Rei, muito vaidoso, pediu a eles que lhe confeccionassem uma roupa com tal tecido, achando o monarca que o traje lhe seria útil, pois se tivesse uma vestimenta com aquele tecido, poderia, em dois tempos, saber quais dos seus ministros eram demasiado estúpidos e inadequados para desempenhar as suas funções.
Para começar o trabalho os tecelões receberam vários baús cheios de riquezas, como linhas de ouro, seda e outros materiais raros e exóticos, tudo exigido pelos artificiosos para a confecção das roupas.
Em seguida, guardaram todos os tesouros e ficaram em seu tear, fingindo tecer fios invisíveis, que todas as pessoas alegavam ver, para não parecerem parvas. Logo se imagina que muita gente fez papel ridículo para não passar por estúpido, principalmente o Imperador! Ele estava ansioso por ver o andamento do trabalho, mas, apesar de saber que era o homem mais esperto das redondezas, ficou um pouco preocupado com o fato de talvez não conseguir ver o tecido.
Mandou chamar o Primeiro-ministro e ordenou que ele fosse se inteirar do andamento do trabalho dos tecelões.
O Primeiro-ministro também não conseguia ver nada, mas receou que o Imperador o dispensasse se demonstrasse ser um daqueles infelizes demasiado estúpidos para apreciar o tecido. À Vossa Alteza voltou o ministro com a notícia de que era absolutamente perfeito e afirmou com honestidade que nunca tinha visto nada igual.
Impaciente e duvidoso, não tardou que o Imperador enviasse seu chanceler para inspecionar novamente o trabalho, só que o pobre homem não conseguia ver coisa alguma, mas disse que o traje era de beleza incomparável. A verdade, porém, era que também não queria perder o seu emprego.
Por fim, o Imperador não mais se conteve, reuniu os seus ministros e foram ver o progresso dos supostos alfaiates.
Os tecelões, ao ouvirem o barulho das roupas do Rei a arrastar pelo corredor, fingiram estar atarefados nos seus teares. As suas mãos andavam frenéticas, para a frente e para trás, como se trabalhassem com afinco na mais bela e fina das vestes. Mas de fato seguravam absolutamente nada!
O Imperador estancou. Parecia um pesadelo! Só ele, de toda a sua corte, era demasiado estúpido para não conseguir ver o maravilhoso tecido? Sentia a garganta seca e a voz até tremeu quando afirmou com convicção fingida: "Que lindas vestes! Vocês fizeram um trabalho magnífico!". Embora não visse nada, não ousou dizer que nada via, pois isso seria admitir na frente dos súditos que não tinha a capacidade necessária para ser Rei. Assim, o Imperador não perdeu a pose. Os nobres ao redor soltaram falsos suspiros de admiração pelo trabalho, nenhum deles querendo que achassem que eram incompetentes ou incapazes.
Os velhacos garantiram que as roupas logo estariam completas, e o Rei resolveu marcar uma grande parada na cidade para que ele exibisse as vestes especiais. Naturalmente, era de esperar que o Imperador fosse usar as roupas feitas com aquele novo tecido, de que já todo o império ouvira falar.
Na manhã do grande dia, o Imperador estava de ceroulas enquanto os tecelões o ajudavam a vestir a roupa nova. Concordou com tudo o que lhe disseram acerca do corte e das características do tecido. Depois de andar umas quantas vezes para a frente e para trás, de modo a, segundo os tecelões, poder ver como a cauda do manto lhe assentava bem, quase se convenceu que conseguia mesmo ver o traje e que estava efetivamente muito bem feito.
E foi assim que o Imperador saiu à rua, todo orgulhoso, a comandar o regimento real, vestido apenas com as suas melhores ceroulas.
Começou por reinar um silêncio de espanto por entre a multidão que enchia as ruas, mas como já todos tinham ouvido falar de que apenas as pessoas inteligentes conseguiam ver aquelas roupas, primeiro um, depois outro dos súbditos exclamaram, à medida que o Imperador ia passando: “Maravilhoso! Soberbo!” Dali a pouco, já toda a gente aplaudia e dava vivas. O Imperador não cabia em si de contente.
Contudo, quando toda a gente está a fazer muito barulho, acontece por vezes haver de repente breves momentos de silêncio. Um desses momentos deu-se quando o Imperador chegou à praça principal da cidade. No meio desse silêncio, a voz de uma criança fez-se ouvir claramente em toda a praça.
— Mas, mãe! – gritou o menino. — O Imperador está nu!
Naquele momento, a multidão caiu em si, vendo que o menino dissera a verdade e que tinham sido tão palermas quanto o Imperador. Uma após outra, as pessoas começaram a rir. Durante alguns segundos, o Imperador ainda tentou manter a pose digna da sua posição, mas depois lançou o seu manto imaginário para trás do ombro e, assim, continuou mais impassível que nunca, e os camaristas continuaram segurando a sua cauda invisível.

Sempre atual, esta fábula sobre a hipocrisia é bastante ilustrativa ao momento em que vivem os cidadãos vilabobenses.
Preferem a verdade dos outros porque têm preguiça de pensar e construir as próprias verdades.
Preferem andar nus, como o Imperador da fábula, a ter que admitir que são ignorantes.
Preferem viver como baratas a ter que admitir a verdade.
Queira Deus que uma criança “malcriada” não estrague tudo isso!
 




Wallace Rocha





           


[2] Idem.
[5] João Luiz Mauad (Administrador de empresas), em artigo A Ética da Mentira.
[6] Idem.
[7] Eros Salerno, em artigo Em Foco: A Ética Institucional.
[8] Raimundo Salles (Advogado e Diretor Comunicação de SBC) em artigo A Ética da Mentira.
[9] Idem.